Se você caminhar hoje pelas terras avermelhadas de Minaçu, no norte de Goiás, ou pelas colinas de Poços de Caldas, em Minas Gerais, dificilmente sentirá o tremor de uma guerra convencional. No entanto, ela está acontecendo agora mesmo. Não é uma disputa de trincheiras ou mísseis, mas uma batalha de átomos. Existe uma busca frenética por dezessete elementos químicos escondidos na poeira, conhecidos coletivamente como terras raras.
Neste início de 2026, o Brasil deixou de ser apenas o celeiro do mundo para se tornar o tabuleiro principal de uma disputa entre Washington e Pequim. Pela primeira vez em décadas, o país parece ter compreendido que deter o minério não é o bastante. O verdadeiro poder está em quem possui a chave do cofre tecnológico.

E para entender melhor o título deste artigo, o nome deste novo tesouro nacional é tão técnica quanto fascinante. O termo ouro de 17 faces refere-se ao grupo exato de dezessete elementos químicos que compõem as terras raras, sendo eles os quinze lantanídeos somados ao escândio e ao ítrio. Cada uma dessas faces representa uma aplicação vital na engrenagem do mundo moderno, funcionando como o ingrediente secreto que permite desde o brilho intenso das telas de alta definição até a força dos superímãs usados em geradores eólicos e motores de última geração.
É um ouro que não brilha como o metal amarelo tradicional, mas que possui dezessete utilidades indispensáveis para a soberania tecnológica de qualquer nação. Dito isso, vamos entender o real cenário que estamos vivendo nesse momento.
A Geopolítica do Ímã
Para entender o motivo de tamanha cobiça pelo solo brasileiro, basta olhar ao redor. Do smartphone no seu bolso ao motor de um carro elétrico, passando pelos sistemas de mira de caças avançados, nada funciona sem as terras raras. Elas são o sistema nervoso da tecnologia moderna.

Até pouco tempo, a China detinha um monopólio quase absoluto, controlando cerca de noventa por cento do refino desses minerais no mundo. Esse cenário mudou quando os Estados Unidos, movidos pela urgência de sua segurança nacional, voltaram os olhos para o sul. O governo americano, utilizando seu braço de investimento estratégico, aportou bilhões de reais na operação da mineradora Serra Verde, em Goiás. O motivo é estratégico, já que o Brasil possui a segunda maior reserva do planeta, com um potencial de vinte e um milhões de toneladas de minério adormecido.
Enquanto Washington fala em redução de riscos e dependência, Pequim responde com diplomacia pesada e ofertas de infraestrutura. No centro desse redemoinho, o Brasil tenta deixar de ser um mero cenário para se tornar protagonista da própria história.
O salto industrial: Refinar ou Perder?
A grande verdade por trás dessa disputa é que minerar terras raras é a parte menos complexa do processo. O verdadeiro desafio reside no refino. Separar esses elementos exige uma química sofisticada, cara e cercada de cuidados ambientais.
Historicamente, o Brasil enviava a terra bruta para o exterior e comprava o produto final por um valor infinitamente superior. Contudo, em janeiro de 2026, a postura brasileira endureceu. A nova diretriz de Brasília é clara: quem quiser o neodímio brasileiro precisará construir as plantas de separação e beneficiamento dentro do território nacional.







