A ligação entre combustíveis segue mexendo na margem do produtor e exige leitura fina do mercado.
Quem acompanha o mercado de etanol sabe que ele não anda sozinho. A cotação do petróleo lá fora, mesmo sem aparecer todo dia na conversa da porteira para dentro, acaba entrando na conta do produtor via competitividade com a gasolina. Esse movimento ficou claro ao longo de 2024 e segue presente agora, com preços firmes na entressafra e um sinal de alerta ligado para a próxima safra.
O ponto é que o etanol não reage apenas à cana disponível ou ao consumo doméstico. Ele responde ao pacote completo de energia: petróleo, gasolina, câmbio e política de combustíveis. Entender esse encaixe ajuda o produtor e a usina a não tomarem decisão no susto.
O que está acontecendo com os preços do etanol
Os dados mais recentes do Cepea mostram um mercado firme na virada do ano. Entre o fim de dezembro e o início de janeiro, o etanol hidratado foi negociado, em média, a R$ 2,9561 por litro, líquido de impostos. Esse movimento marcou a 12ª semana consecutiva de alta. No mesmo período, o etanol anidro fechou em R$ 3,3688 por litro, acumulando a segunda semana seguida de valorização.
Na prática, o produtor sente isso no bolso porque a entressafra limita a oferta. Estoques mais enxutos no Centro-Sul e uma demanda mais aquecida, especialmente pelo hidratado, sustentam as cotações. Em São Paulo, as vendas de hidratado cresceram de forma expressiva, reforçando essa firmeza até pelo menos março.
Onde o petróleo entra nessa conta
Mesmo sem números fechados recentes de paridade, a lógica é direta. Quando o petróleo internacional sobe, a gasolina tende a ficar mais cara ou, no mínimo, mais pressionada. Isso melhora a competitividade do etanol na bomba, principalmente do hidratado, puxando consumo e dando suporte aos preços no mercado físico.
Em 2024, esse canal ficou evidente. Oscilações do petróleo trouxeram volatilidade para os combustíveis como um todo. Não é que o etanol copie o petróleo, mas ele reage ao espaço que a gasolina deixa. Já o anidro sente esse efeito de forma indireta, porque depende da mistura obrigatória na gasolina C e do ritmo de vendas do combustível fóssil.
Custos, margens e a decisão de venda
Com preços firmes na entressafra, a margem melhora para quem tem produto disponível. Mas o produtor não pode olhar só o preço na tela. Custo de produção, necessidade de caixa e capacidade de armazenagem pesam muito.
O que muda a conversa é lembrar que esse suporte atual vem mais da restrição de oferta do que de um cenário estruturalmente apertado. Ou seja, é um mercado que paga bem agora, mas pode virar mais à frente.
Safra nova no radar e risco de pressão
O Cepea projeta que a safra 2026/27 no Centro-Sul pode atingir 625 milhões de toneladas de cana, com início de moagem a partir de abril. Esse volume maior, somado à expansão do etanol de milho, acende o alerta para um possível excesso de oferta mais adiante.
Além disso, o mercado internacional de açúcar trabalha com a expectativa de superávit global. Se o açúcar perder atratividade, mais cana pode ser direcionada para etanol, aumentando ainda mais a oferta. É aí que o petróleo volta a ser decisivo: se ele não sustentar a competitividade do etanol frente à gasolina, a pressão nos preços aparece rápido.
Câmbio e exportação entram no jogo
Mesmo sem dados recentes de câmbio detalhados, o mecanismo é conhecido. Um real mais fraco melhora a atratividade das exportações e ajuda a indústria a escoar parte da produção. Já um câmbio mais forte limita esse canal e deixa o mercado interno mais carregado.
Para o produtor, isso significa acompanhar não só o preço do etanol, mas também o ambiente macro. Petróleo, câmbio e política de combustíveis formam um tripé que define a liquidez do setor.
Estratégias práticas para quem produz
Diante desse cenário, algumas linhas de ação fazem sentido:
- Aproveitar a entressafra para negociar volumes disponíveis enquanto o mercado segue firme.
- Evitar travar tudo pensando apenas no preço atual, já que a safra nova pode mudar o jogo.
- Monitorar o petróleo como indicador indireto de competitividade do etanol frente à gasolina.
- Ficar atento ao açúcar, porque a decisão industrial impacta diretamente a oferta de etanol.
Estoques baixos ajudam a limitar quedas no curto prazo, mas não seguram um mercado pressionado por oferta maior lá na frente. Planejamento e leitura de mercado seguem sendo tão importantes quanto produzir bem.
Para acompanhar análises completas de etanol, acesse sempre nossa página exclusiva em Agronews – etanol em tempo real.
Agronews é informação para quem produz.