Com investimentos em biotecnologia e segurança jurídica, a soja consolida o Brasil no topo do agronegócio mundial e abre as portas para a transição energética.
O mercado não se move apenas por números. No agro, cada dado carrega uma consequência concreta: uma decisão de plantio, uma venda adiada, um frete mais caro, uma margem mais apertada ou uma oportunidade que aparece antes da porteira fechar. O Brasil não se consolidou como o maior produtor e exportador de soja do planeta por acaso, mas porque transformou suas terras em um vasto laboratório a céu aberto, onde a inovação dita o ritmo de quem sobrevive na atividade.
Durante um Workshop promovido pela Bayer focado no futuro do agronegócio e na evolução tecnológica da lavoura, ocorrido na manhã desta segunda-feira(15), em São Paulo, o diagnóstico foi unânime, “A profissionalização não é mais uma escolha, é uma exigência“. A demanda global pela oleaginosa dobrou nas últimas duas décadas, e o agricultor brasileiro agarrou a maior fatia desse bolo. Como resumiu Fabiano Oliveira, líder do negócio de soja da Bayer, o progresso foi estrutural. “Foi muito melhor ser agricultor no Brasil nos últimos 20 anos do que em qualquer outro país que produz soja“, destacou, lembrando que esse avanço se espalhou pelos municípios produtores, elevando a qualidade de vida e os índices de desenvolvimento humano (IDHM) no interior do país.
Contudo, para que o produtor continue colhendo safras recordes, a engrenagem que roda nos bastidores precisa estar perfeitamente azeitada. E ela começa muito antes da semente tocar o solo.
O longo trajeto da ciência até a lavoura
Criar uma nova cultivar adaptada e resistente leva tempo e consome muito capital. São cerca de 15 anos de pesquisas e mais de 200 milhões de dólares investidos para que uma biotecnologia saia da prancheta e chegue às mãos do produtor. Mas todo esse esforço científico seria inútil se não resolvesse a dor de quem está no batente diário. Francila Calica, diretora de Sustentabilidade e Assuntos Agrícolas da Bayer, foi cirúrgica ao mediar o debate sobre o tema: “Não existe pesquisa, inovação e entrega de tecnologia se essa tecnologia não faz sentido pro nosso agricultor“.
A grande virada de chave do mercado nacional foi justamente escalar essas descobertas. Fábio Passos, diretor de soja comercial da empresa, explicou a magnitude desse processo no Brasil. “O maior desafio da ciência não é o descobrimento, é como a gente faz algo extremamente relevante ser aplicado em larga escala, chegar em 90% das áreas do Brasil“, afirmou.
Nessa jornada, a indústria de sementes atua como a ponte indispensável entre a genética de ponta e a fazenda. Tajes Martinelli, CEO da Sementes J Basso, detalhou a responsabilidade do sementeiro na engrenagem. “A semente é o veículo que carrega tanta inovação e tecnologia pros nossos produtores. O papel de um sementeiro é escalar essas biotecnologias para que o potencial genético entregue a sua máxima potencialidade no campo“, pontuou o executivo.
Na ponta final dessa cadeia está o agricultor, que precisa transformar investimento em lucro debaixo de sol, chuva e intempéries. Para Pompílio Rocha Silva, produtor rural em Chapadão do Sul (MS), a decisão de compra é o momento mais crítico da safra. Ele observa que o setor se fascina por maquinários pesados, mas o verdadeiro jogo se ganha na base. “O agricultor muitas vezes tá pensando num trator, numa máquina nova, mas esquece que a tecnologia que vale na fazenda é você botar o conhecimento que você tem naquela semente“, alertou, emendando um recado claro, “Quem não se inova, quem não se reinventa, não cresce“.
O escudo invisível e o rombo bilionário da pirataria
Toda essa evolução tecnológica só foi possível porque o Brasil soube criar um ambiente seguro para o capital privado. Nenhuma empresa injetaria centenas de milhões de dólares em desenvolvimento se não houvesse garantias contra cópias. Luiz Henrique do Amaral, membro da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI), relembrou que a consolidação de leis de patentes e proteção de cultivares na década de 1990 foi o marco zero desse salto. “Países que não tiveram a coragem de implementar uma legislação segura, hoje sofrem sem inovação. O Brasil andou muito bem“, analisou.
Apesar desse arcabouço robusto, o setor ainda sangra diariamente com o uso de insumos ilegais. A chamada “semente pirata” concorre de forma desleal e coloca em risco a sanidade das lavouras. Catharina Pires, diretora da CropLife Brasil, apresentou dados duros sobre o problema: cerca de 11% da semente de soja no país tem origem clandestina, número que passa dos 28% em estados como o Rio Grande do Sul. “O agricultor que planta uma semente ilegal é aquele ditado: o barato sai caro“, advertiu, ressaltando que o impacto financeiro dessa fraude “gera um prejuízo por ano de 10 bilhões de reais“, afetando arrecadação, investimentos e, fatalmente, a produtividade na fazenda.
A transição energética e o campo do futuro
Com as lições do passado assimiladas e as regras jurídicas bem estabelecidas, o olhar agora se volta para a próxima fronteira de valorização da cultura. Se nas últimas duas décadas o mercado chinês de proteínas puxou as exportações brasileiras, as próximas décadas apontam para um novo e poderoso indutor: a bioenergia.
Rafael Mendes, diretor do negócio de soja da Bayer, convocou o setor a olhar para frente. “Como é que a gente constrói caminhos que sustentam essa alta produtividade no Brasil? O futuro se torna realidade presente e a transição energética será fundamental para capturar valor“, provocou o executivo na abertura das discussões sobre sustentabilidade.
Essa mudança de rota já começou. Fábio Meneghin, fundador da Veeries, desenhou um cenário de transição brutal nas dinâmicas de consumo. “O biocombustível vem para complementar o crescimento que a gente viu nos mercados de proteínas“, projetou.
Segundo suas estimativas, amparadas na Lei do Combustível do Futuro e no avanço do biodiesel, diesel verde (HVO) e combustível sustentável de aviação (SAF), a chave de ignição da demanda mudará de lado. “A gente vê o mercado doméstico sendo o grande driver de crescimento, com mais de 70% de indução do crescimento devido a essa transição energética“, explicou.
Porém, acessar esses novos mercados exigirá mais do que apenas volume de grãos. O mundo pagará por sustentabilidade e métricas rigorosas de baixa emissão.
Catarina Correa, gerente de relações institucionais da Bayer, resumiu a nova equação que o produtor terá que resolver. “Temos um desafio pro produtor que é de aumentar a produtividade, mas tem um desafio também que é de reduzir a intensidade de carbono“, concluiu, frisando o papel das tecnologias e da agricultura digital na mensuração desses resultados para gerar créditos de descarbonização (CBIOs).
No campo, notícia boa ou ruim só ganha sentido quando encontra a realidade da fazenda, a capacidade de investimento e a plantadeira alinhada no talhão. E é nessa travessia entre a genética do laboratório e a demanda das companhias aéreas globais que o produtor rural precisará afiar seu conhecimento técnico. O agronegócio do futuro não aceita amadores, mas recompensa fartamente quem domina a ciência da própria terra.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.